domingo, 7 de dezembro de 2008

A Natureza das Coisas

"Se avexe não...
Amanhã pode acontecer tudo
Inclusive nada.

Se avexe não...
A lagarta rasteja
Até o dia em que cria asas.

Se avexe não...
Que a burrinha da felicidade
Nunca se atrasa.

Se avexe não...
Amanhã ela pára
Na porta da tua casa

Se avexe não...
Toda caminhada começa
No primeiro passo
A natureza não tem pressa
Segue seu compasso
Inexoravelmente chega lá...

Se avexe não...
Observe quem vai
Subindo a ladeira
Seja princesa, seja lavadeira...
Pra ir mais alto
Vai ter que suar"


(Acioly Neto)
Pra refrescar
um banho de chuva,
um beijo molhado,
um banho gelado quando de cabeça quente.

Pra refrescar,
uma bola de sorvete,
um sorriso verdadeiro,
uma sombra num dia de verão.

Pra refrescar,
uma piscina grande e azul,
um abraço de saudade,
um poema de amor.

Pra refrescar,
eu, você e uma água de coco,
um mergulho no fundo um do outro,
um domingo que se eterniza num encontro.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Liberdade é responsabilidade

Não sei exatamente porque
Mas somos seres habituados
À rotina.

Por mais que busquemos atividades diferentes,
Por mais que façamos coisas diferentes diariamente,
Mesmo que nosso dia-a-dia seja,
A cada dia, algo novo;

Mesmo assim, somos seres de rotina.

Precisamos nos acomodar,
Minimamente,
Em posições familiares,
Ao menos para não nos perdermos de nós mesmos.

Buscamos homogeneizar
Nossas ações, nossos pensamentos,
Desejando formar e nos convencer de que há
Uma identidade propriamente nossa.

Caminhando a passos largos,
Ou lentamente,
Com todas nossas diferenças
Buscamos certezas sobre o que somos realmente.

O perigo da existência humana está
Justamente no afã de nos imortalizar
Pois para isso nos acostumamos a repetir ações e pensamentos,
Por mais irracionais e pouco saudáveis que estes sejam...

Repetimos palavras,
Ecoamos pensamentos
E nos prendemos, sem perceber,
A uma prisão feita de nós, por nós mesmos.

Acomodamo-nos às coisas familiares,
E, aprisionados,
Seguimos repetindo o que poderia se interromper...
Se ousássemos mudar.

Mas mudanças podem nos afastar
Da ilusão que pensamos ser,
E nos perder da identidade
Que levamos anos para tecer.

Quando, impetuosamente maduros,
Ousamos nos libertar dos estereótipos,
Entendemos que os limites que nos constituem,
Na verdade, nos destroem...

Livres, compreendemos que somos seres de mudança,
E que ter identidade não é limitar-se
À solidão e fria figura de uma estátua:
Ter identidade é, simplesmente, ser.

Metamorfoseando-nos, a todo instante,
Nos tornamos sempre mais nós mesmos,
Cada vez mais próximos, pelas semelhanças e diferenças,
Dos outros que somos em parte.

Conscientes de que mudamos, a cada segundo,
Desde a pele até a alma,
Nos responsabilizamos pelo que nos tornamos,
Escolhendo com sabedoria cada passo dado à vida.

Natalie S. Dowsley.

Como nossa flor

Sou como aquela flor,
Que avisto adiante:
Por fora, pétalas e pétalas
De uma folhagem escura
E grossa, protegida.

Por dentro,
Pedacinhos de uma natureza
Frágil e sensível,
Que esforçasse para ser, para sempre,
Perfumada aos teus sentidos.

Sou como a flor que outrora me deste:
Antes pequena, escondida,
Temerosa, talvez, diante da vida;
Hoje, fortalecida: duramente maleável,
Presa a teu amor como Teseu à caverna de Minotauro.


Aquela flor, aquele fio que me ofertaste,
Me conduz, infinitamente,
Ao teu coração.
Através daquela flor,
Regaste em meu peito um mundo,
Fizeste do mundo nossa união.

Como aquela flor
Que avisto de longe
Tão perto,
Somos um: pétala por pétala,
Despetalados:
Nus e desprotegidos pelo amor.

Natalie S. Dowsley
(A Maycon)


quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

O que carrego comigo

O que carrego comigo

O peso que carrego
Há anos e anos
Não é feito de malas e
Problemas...

Arrasto, comigo,
Como parte que me compõe –
Uma parte que não me orgulho expor –
Um filho, uma família inteira!

Pai, mãe e filhos,
Nascidos de um mesmo dilema;
Frutos de mesmas dores,
Partos interrompidos pelo cansaço da caminhada.

Carrego comigo,
Não nas costas ou nas mãos,
Um mundo de pessoas
Familiarmente desconhecidas...

Os ombros seguem leves
E enganam os desavisados.
Até o espelho, inocente,
Se espanta justamente quando vê os olhos inchados.

O peso que arrasto
Segue-me como sombra
Entrelaçando minhas pernas
Deixando-me às vezes tonta.

Preenche-se como fosse
Um filho no ventre-invólucro
E abraça meus quadris
Como quem resiste em nascer.

Caminho pra onde posso
Levando comigo o filho abortado
Que não morrera...
Mas, também, não nascera...

Coloco o rebento para dormir
Na esperança de alcançar um minuto de paz.
Minhas pernas doem, cansadas,
E minh’alma segue, atroz.

Lutando para manter-me de pé,
A criança, hoje adulta,
Cresce cada dia mais
E me toma por inteira: cabeça, corpo, garganta.

Sei que para viver
Precisarei abdicar:
Ou vives tu, pequeno herdeiro do caos,
Ou vivo eu, beirando a loucura do cais...

Matar-te é destruir parte de mim.
Matar-te é assassinar
E suicidar,
Com a mesma bala...

Por isso o dilema,
Por isso a tristeza!
Porque para viver preciso te matar...
E te matar é também morrer.

Tenho, então, que desejar interromper tua gestação
Não por mim, pelos sorrisos que nunca darei,
Mas sim por outra,
Que ainda há de nascer quando eu morrer.

Outra que ocupará este corpo
Onde antes eu e tu habitávamos.
Outra, que herdará o estrago
Que tuas mãos, pesadas, fizeram ao meu corpo, frágil...

Essa outra poderá consertar-me
E fazer-me mais feliz
Mesmo que eu não exista mais,
Mesmo que eu hesite demais...

A felicidade da outra que ainda não vive
Será também a felicidade da que hoje fito ao espelho.
E as duas, mesmo sem saberem,
Carregarão, para sempre, uma e outra, no peito.

As cicatrizes da primeira
Servirão como troféu para a segunda;
E a felicidade das duas se fará
Quando aquele filho, nauseabundo, se desintegrar...

E ele ficará apenas na lembrança
De duas mulheres que lhe ninaram em parceria:
Uma, emprestando-lhe o corpo, destruído pelo peso;
A outra, libertando-o e a si mesmo, com o amor-próprio e a sabedoria.

Natalie S. Dowsley.


p.s.: Para os desavisados: não é um texto "deprimente"; é um texto de LIBERTAÇÃO. Pode crê que é um texto feliz! ;)

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

GENTILEZA

Imagem: Profeta "Gentileza"

"José Datrino nasceu em Cafelândia, interior de São Paulo, em 1917. Teve uma empresa de transporte de cargas e residia com sua família em Guadalupe. Seis dias depois do incêndio do Circo Norte-Americano, em Niterói, quando morreram 400 pessoas, Datrino mudou sua vida. Segundo ele, uma revelação fez com que deixasse tudo para a família e assumisse uma nova identidade: Jozze Agradecido ou Gentileza."
Inspirado em Gentileza, Marisa Monte escreveu e cantou a música "Gentileza": linda!
("O mundo é uma escola / A vida e um circo / Amor palavra que liberta / Já dizia o profeta.")


"Não é que o mundo seja só ruim e triste. É que as pequenas notícias não saem nos grandes jornais. Quando uma pena flutua no ar por oito segundos ou a menina abraça o seu grande amigo, nenhum jornalista escreve a respeito. Só os poetas o fazem."


Pois é...
Como seria bom se os jornais anunciassem,
se os repórteres brandassem,
se as capas de revistas declarassem, com letras garrafais:
"HOJE UM PASSARINHO POUSOU NO OMBRO DA GAROTA TRISTE".
E o mundo sorriria,
pois saberia que há esperança
para aqueles dias em que nossos olhos
são cachoeiras
que deixam cair suas águas,
límpidas, claras,
da alma para o mundo.

E a alegria preencheria nossos dias.
A fé se renovaria:
não em uma religião,
em crenças fanáticas:
a fé na vida!
Fé no universo,
nas pessoas,
na magia invisível que nos cerca.

Que bom seria
se os jornais vendessem mais
ao divulgar as mesmas notícias todos os dias:
"POLICIAL GENTIL ACOLHE SENHORA APÓS ASSALTO".

Mas parece que o mundo
está de cabeça pra baixo!
As notícias que "vendem"
são as que anunciam o contrário...

Ainda nos restam os poetas, as poetisas,
que preenchem nossos corações
com aromas da infância
e gosto de alegria.

Permitem que continuemos a crêr
no que nos enche de nostalgia:
aquele tempo, que ainda podemos resgatar,
em que a gentileza era regra
e o "bom dia", para todos,
nos preenchia de humanidade.

Natalie S. Dowsley